Os historiadores e as fontes:
O texto de Verena Alberti define com muita propriedade o que significa história oral, permitindo o testemunho e o acesso à história dentro da história, aumentando assim as interpretações do passado.
Neste texto é definida a realização da história oral através de entrevistas gravadas com pessoas que participaram ou testemunharam um fato importante do passado ou presente. A história oral se beneficia de diferentes disciplinas como: ciências humanas, antropologia, literatura, sociologia, história e psicologia.
O marco da História Oral foi em 1948, quando foi inventado o gravador a fita. A principal preocupação era entrevistar personalidades importantes da História Americana, homens públicos que tiveram participação reconhecida na vida pública econômica e cultural.
Em 1960 surge a História Militante para dar voz à minoria que não deixaram escritas a sua vida. Como entrevistas com camponeses e trabalhadores sobre sua trajetória e sua vida cotidiana. Na frança chegou-se a publicar uma coleção com o nome “Vivências” opondo-se a história positivista de XIX. A História Oral tornou-se a oposição da História da Nação. A História dos humildes, dos primitivos, dos “sem história”.
Em 1970 chega ao Brasil a História Oral, organizado pelo GDCS, Biblioteca Nacional, Arquivo Nacional, Fundação Getúlio Vargas e Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação. Em 1975 começa a serem realizadas do P. de H. Oral (CPDOC). Em 1980 houve um processo de consolidação com importantes coletâneas de artigos.
Em 1988 o México sediou o 1º Encontro de Historiadores Orais da América Latina, com cerca de 50 pesquisadores.
Em 1990 a História Oral cresceu vertiginosamente também no plano internacional com a criação da Inter Oral History Association.
A realização de entrevistas:
A entrevista de história oral é realizada com pessoas diferentes e até gerações diferentes. É, no entanto um momento em que o entrevistado relatará sua história de vida, suas experiências em um determinado “tempo”, em que ele se colocará diante um gravador ou câmera. Desta forma ele precisará de um tempo mais longo, esse depoimento normalmente durará entre uma ou duas horas, para que possa se obter um bom resultado. O pesquisador tem que ter o devido cuidado de respeitar o tempo do raciocínio do entrevistado para que ele possa concluir sua linha de lembranças e construção do pensamento. Fazer uma entrevista é avaliá-la e analisá-la constantemente enquanto é gravada e, mais tarde, quando é objeto de análise.
Em uma entrevista deve-se realizar perguntas abertas, como por exemplo, “a que o senhor atribui? Onde a senhora estava quando?” Ao formular as perguntas o pesquisador deve ser bem simples e direto ao assunto.
Alguns cuidados são essências ao realizar uma entrevista. Primeiro, fazer um cabeçalho com o nome do entrevistado, entrevistadores, a data, o local e o projeto no qual a entrevista se insere. Para que essa fonte não se perca, e também quando outros pesquisadores forem utilizar a mesma.
O tratamento de entrevistas:
No tratamento dessas entrevistas deve-se ter o devido cuidado com esse material. Se uma fita cassete se parta durante a escuta ou se extravie, é necessário que se faça uma cópia, para que esse material não se perca por completo. Outra forma é transcrever a entrevista. A transcrição exige dedicação, paciência e sensibilidade. É ficar atento às preposições, as quais aplicadas de maneira diferente perdem completamente o sentido do conteúdo abordado.
A tecnologia de gravação:
Ao realizar uma entrevista oral o pesquisador deve se munir com equipamentos de gravação e reprodução de áudio e/ou vídeo, isso implicará no objetivo do trabalho. Esse trabalho também pode ser realizado em fita cassete, fitas magnéticas digitais. Hoje em dia há muitas dúvidas sobre as técnicas de conservação e arquivamento. Qual o maior suporte para se gravar as entrevistas e como evitar sua deterioração e absolescência? Se esse material for para constituição de um acervo é preciso e recomenda-se adotar tecnologias digitais.
O pesquisador que trabalha com reprodução e preservação de fontes orais precisa manter-se constantemente atualizado sobre novas tecnologias.
Interpretação e Análise de entrevistas:
Segundo Le Goff, o dever principal do historiador é a crítica do documento. Todo historiador que trabalha com entrevistas de história oral com fontes deve ser capaz de desmontá-las, e até mesmo analisar suas condições.
A análise de um depoimento de História Oral realizada pelo pesquisador, ou por terceiros, deve considerar a fonte como um todo. É de fundamental importância saber “ouvir” o que a entrevista tem a dizer tanto no que diz respeito à narrativa e do entrevistado. Tomar essa entrevista como um todo significa dizer; lê-la e ouvi-la do início ao fim, observando as semelhanças e como se encaixam com o todo, e essa relação nos mostra o significado sobre o passado e o presente e sobre a própria entrevista.
O pesquisador também tem que ficar atento para que sua entrevista não tome rumos diferentes, para que não prejudiquem os significados produzidos.
Desta forma de interpretações pode se adotar na análise de qualquer tipo de fonte e não se afasta muito da lógica do círculo hermenêutico: o todo fornece sentido às partes e vice-versa.
Outro cuidado é com as palavras empregadas pelo entrevistado, são importantes para a interpretação de sua narrativa. As palavras dizem muito... a maneira como elas são colocadas, sobre a visão do mundo e o campo de possibilidades aberto àqueles indivíduos em razão de suas vivências, sua formação e seu meio...
Na interpretação dos documentos é preciso atentar para as narrativas especialmente pregnantes, checar alguns padrões. Nessas análises também se deve ter em mente também outras fontes primárias, secundárias, orais, textuais, iconográficas, etc. Estabelecer tipologias se for o caso. Comparar o que dizem as entrevistas com outros documentos de arquivo. Porque é possível acontecer um deslocamento temporal.
É importante também tomar os fatos (como realmente aconteceu) e suas representações simultaneamente. A responsabilidade do pesquisador é grande em relação ao conhecimento que produz e ao grupo que investiga.
O universo da história oral é complexo e diversificado. Não se trata de sair fazendo entrevistas com as pessoas para que relatem suas vidas, é preciso ter bem claro porque, como e para que se fará uma pesquisa utilizando a história oral. A responsabilidade é grande, pois o resultado final pode tomar formas diferentes (documentais e até jurídicas).
Albertini, Verena. “Fontes Orais. Histórias dentro da História” In: PINSK, Carla, (org) Fontes históricas, SP: Contexto, 2005.
Fico feliz que já começou suas pesquisas sobre história oral, nós vamos precisar pesquisar sobre esse tema para o nosso TCC. Gostei!!
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